Os efeitos da sociomaterialidade de um software de gestão de alambiques: um estudo com o software Cachaça Gestor®
The sociomateriality effects of stills management software: a study with the Cachaça Gestor® software
Carolina Greco1, Alyce Cardoso Campos2,
Mateus da Mata Melo3 e Mozar José de Brito4
1 Universidade Federal de Lavras, Brasil, Mestrado em Administração,
e-mail: caro_lina_greco@hotmail.com, ORCID: http://orcid.org/0000-0003-1825-6349
2 IFSULDEMINAS - Campus Passos, Brasil, Doutorado em Administração,
e-mail: alycecardosoc@yahoo.com.br, ORCID: http://orcid.org/0000-0001-6903-9542
3 Universidade Federal de Lavras, Brasil, Doutorando em Administração,
e-mail: mateus17mello@gmail.com, ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6805-5997
4 Universidade Federal de Lavras, Brasil, Doutorado em Administração,
e-mail: mozarjdb@ufla.br, ORCID: http://orcid.org/0000-0001-9891-9688
Recebido em: 18/01/2025 - Revisado em: 20/09/2025 - Aprovado em: 20/09/2025 - Disponível em: 30/09/2025
Resumo
Este estudo teve como objetivo investigar os efeitos da sociomaterialidade constitutiva do software Cachaça Gestor® sobre as práticas de gestão de organizações produtoras de cachaça. Utilizou-se uma abordagem qualitativa descritiva, com dados coletados por meio de 19 entrevistas, sendo 17 com gestores e duas com desenvolvedores do software. Buscou-se compreender de que forma a materialidade do software implementado se entrelaçou às práticas sociais da organização, investigando mudanças na rotina, desafios na implementação, fatores que favoreceram o processo, benefícios e vantagens competitivas percebidas, bem como a forma de utilização do aplicativo, entre outros aspectos. Os dados coletados foram analisados por meio da técnica de análise temática. Os resultados mostram que a utilização da plataforma trouxe transformações importantes, como inovações nas práticas cotidianas e maior suporte à tomada de decisões. O sistema passou a orientar as práticas de gestão e impactar áreas das organizações, mudando como os indivíduos trabalham e pensam. O estudo também contribui para o entendimento da importância das tecnologias no setor e para a necessidade de apoiar o desenvolvimento dos produtores. Além disso, destaca informações úteis para o sucesso na adoção de sistemas e software, abordando possíveis barreiras e benefícios associados, incentivando inovações em um setor tradicionalmente marcado por práticas gerenciais e tecnológicas amadoras.
Palavras-chave: Sociomaterialidade; Sistema de Informação; Cachaça.
Abstract
This study aimed to investigate the effects of the constitutive sociomateriality of the software Cachaça Gestor® on the management practices of cachaça-producing organizations. A descriptive qualitative approach was employed, with data collected through 19 interviews—17 with managers and two with the software developers. The study sought to understand how the materiality of the implemented software intertwined with the organization’s social practices, examining changes in routine, implementation challenges, factors that facilitated the process, perceived benefits and competitive advantages, as well as how the application is used, among other aspects. The collected data were analyzed using thematic analysis.The results show that using the platform brought significant transformations, such as innovations in daily practices and enhanced decision-making support. The system began to guide management practices and impact organizational areas, altering how individuals work and think. The study also contributes to understanding the importance of technologies in the sector and the need to support the development of producers. Additionally, it highlights useful information for the successful adoption of systems and software, addressing potential barriers and associated benefits, and encouraging innovations in a sector traditionally characterized by amateur practices in management and technology.
Keywords: Sociomateriality; Information system; Cachaça.
1 INTRODUÇÃO
O mercado de cachaça está em processo de valorização, sendo destaque no cenário econômico nacional e internacional. A cachaça passou, após muitos anos, a ser reconhecida como uma bebida genuinamente brasileira com grande potencial de crescimento, atraindo investimentos e passando por um processo de sofisticação e consolidação no mercado. A valorização da bebida pode ser associada às mudanças no cenário de sua produção, que passou por um processo de aprimoramento, contando com normatizações, qualificações e busca por qualidade (Braga; Kiyotani, 2015).
O software Cachaça Gestor® é um exemplo de como as tecnologias podem dar aporte às organizações. A tecnologia tem sido considerada um dos principais aspectos que integram as operações empresariais, desde o nível mais baixo ao mais alto da organização, seja ela pequena ou grande, sendo difícil encontrar alguma empresa contemporânea que não dependa pelo menos um pouco de tecnologia (Orlikowski; Scott, 2008). No cenário da nova economia global, as organizações devem buscar conciliar vantagens competitivas e obtenção de receita, e a utilização de sistemas de informação pode auxiliar nesta tarefa, uma vez que eles contribuem para o aumento de eficiência dos negócios, redução de tempos e custos e na satisfação dos clientes (Aremu; Shahzad; Hassan, 2018).
A sociomaterialidade despontou como uma abordagem teórica alternativa que afirma que a materialidade é parte integrante da organização. Esta perspectiva de análise reconhece que o social e o material estão constitutivamente envolvidos na vida cotidiana (Leonardi, 2013). A partir disso, este artigo teve como objetivo investigar os efeitos da sociomaterialidade constitutiva do software Cachaça Gestor® sobre as práticas de gestão de organizações produtoras de cachaça.
A escolha do setor de alambiques de cachaça para investigação nesta pesquisa pode ser justificada pelo crescimento do setor. Os números deste mercado mostram sua importância, pois existem atualmente cerca de 4000 marcas de cachaça no Brasil; são 30.000 produtores, sendo que destes, 98% são pequenos e microempresários e empregam cerca de 600 mil pessoas de forma direta ou indireta. A cadeia produtiva da bebida movimenta anualmente 7,5 bilhões de reais. A cachaça é considerada a bebida nacional do Brasil por Decreto Federal, Patrimônio Cultural de Minas Gerais por Lei Estadual e Patrimônio Histórico e Cultural do Rio de Janeiro, é o 3º destilado mais consumido no mundo e possui 87% do market share de destilados no Brasil. Além disto, pode ser considerada a única bebida capaz de ter um boom no mercado internacional (ExpoCachaça, c2025).
Os estudos voltados para a produção e mercado de cachaça têm importâncias teóricas e mercadológicas, como já comprovado pelos números expostos acima e por outros trabalhos acadêmicos, que destacam a relevância de se estudar as possibilidades e desafios deste setor produtivo (Paiva et al., 2017; Paiva; Brito, 2019). Estudar a utilização de um software de gestão de alambiques e entender seus impactos sobre as práticas, contribui para o entendimento da importância das tecnologias neste setor e para a necessidade de auxiliar no desenvolvimento dos produtores.
Além desta introdução, o estudo está estruturado em mais cinco seções. A seguir, apresenta-se a fundamentação teórica, que explora as relações sociomateriais entre humanos e tecnologias. Posteriormente, descrevem-se os procedimentos metodológicos adotados e expõem-se os resultados, os quais evidenciam os desafios e as potencialidades da implantação do Cachaça Gestor® sob a ótica das organizações usuárias, bem como os efeitos da sociomaterialidade sobre as práticas de gestão. Por fim, são apresentadas as considerações finais e as referências utilizadas neste estudo.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O entrelaçamento entre o social e o material manifesta-se de forma indissociável nas atividades organizacionais, influenciando tanto as práticas cotidianas quanto os processos e as estruturas (Lavarda; Melo; Leite, 2025). A pesquisa em Sistemas de Informação reconhece a importância dos aspectos materiais e sociais dentro da relação humano-tecnologia. Existem muitos estudos e evidências empíricas que demonstram como as novas tecnologias (a exemplo de software, hardware, sistemas, políticas, etc.) são capazes de alterar a dinâmica social das organizações, seja na mudança das estruturas, na tomada de decisões, nas relações de poder ou na mudança das redes informais de comunicação, permitindo ou restringindo o comportamento (Dwivedi et al., 2014; Parmiggiani; Mikalsen, 2013; Pereira, 2024; Silva et al., 2023; Souza; Silva, 2024).
Os acadêmicos têm buscado entender as duas faces do fluxo, ou seja, tanto se as redes sociais já estabelecidas podem influenciar nos efeitos das tecnologias implementadas, quanto o contrário. Nesse contexto, observa-se que a dinâmica social influencia a maneira como as tecnologias são compreendidas e aplicadas, ao mesmo tempo em que as próprias tecnologias também exercem impacto sobre as práticas e interações sociais (Matte et al., 2021; Vieira, 2021). Portanto, as tecnologias podem moldar e serem moldadas pelas estruturas sociais nas quais são introduzidas (Contractor; Monge; Leonardi, 2011).
Sabe-se que todas as tecnologias de informação foram criadas por pessoas e, sendo assim, são resultado de processos sociais. Ainda assim, é importante compreender que a agência material confere aos dispositivos não humanos a capacidade de agir por si mesmos (Castanheira, 2025; Gregory, Dalmoro, 2022). Explicando melhor, uma vez que as tecnologias saem das mãos de seus desenvolvedores e são implementadas em contextos organizacionais, os usuários nem sempre podem controlá-las totalmente, já que elas possuem um conjunto de recursos que fazem, ou não, determinadas atividades e processos. As tecnologias são entregues aos usuários possuindo uma materialidade pré-configurada, que limita a atividade dos mesmos (Elbanna, 2016; Leonardi, 2011, 2013, 2017).
O entrelaçamento entre as agências humanas e materiais pode ser considerado um processo de “imbricação”. Wang et al. (2015) demonstraram que as agências humanas e materiais se imbricam na materialidade, no “espírito” da tecnologia, porém isto depende das capacidades e habilidades dos indivíduos. Estas imbricações podem produzir diferentes resultados sociais, a exemplo de novas rotinas ou até mesmo novas tecnologias. Os autores defendem que as influências das práticas sociomateriais podem variar quando há a imbricação, de acordo com as capacidades do indivíduo.
O êxito ou o insucesso na implementação de um Sistema de Informação não está unicamente ligado aos fatores humanos ou tecnológicos, mas resulta do surgimento de relações sociomateriais em que ambos se conectam e se interdependem (Kautz; Cecez-Kecmanovic, 2013; Silva et al., 2020; Valentim; Ceolin, 2024). É possível que artefatos de TI possam se incorporar às organizações com êxito, de forma a tornar improvável que as rotinas organizacionais sejam executadas sem eles, tornando-se parte das mesmas. Quando isto ocorre, os artefatos de TI passam a desempenhar um papel orientador da ação humana durante as rotinas organizacionais, servindo como guia ou modelo, permitindo ou restringindo a ação humana por meio da exigência de certas ações e impedimento de outras (Robey; Anderson; Raymond, 2013).
A adoção de sistemas de informação, apesar de ser um diferencial competitivo relevante em vários setores, frequentemente enfrenta desafios e exige tempo, sendo que a principal barreira para seu sucesso é a resistência dos próprios usuários (Lin; Huang; Chiang, 2018; Oliveira et al., 2021). Na adoção inicial, a tecnologia pode ser considerada e imediatamente rejeitada, já na etapa de implementação as resistências passam a ser mais significativas por efeito das mudanças resultantes nos sistemas sociais e técnicos, podendo aparecer em forma de atrasos e subutilização, por exemplo. Por último, na pós-implementação, os usuários apesar de aceitarem a implementação do sistema, podem gastar pouco tempo e esforço em sua utilização (Hsieh; Lin, 2018). O desafio se torna ainda mais complexo em micro e pequenas empresas, que geralmente dispõem de menor conhecimento interno sobre sistemas de informação, oferecem pouco treinamento formal e não contam com departamentos ou profissionais especializados em tecnologias (Cragg; Caldeira; Ward, 2011; Nogueira; Oliveira; Silva, 2020; Santos Junior; Carvalho, 2025).
Para melhor entender o fenômeno da sociomaterialidade, Leonardi (2011), assim como Leonardi e Vaast (2017), afirmam que as diferentes maneiras pelas quais as agências humanas e materiais se imbricam devem ser consideradas. Leonardi propõe, então, utilizar-se da teoria de “affordances”. Este termo, todavia, não possui uma tradução consensual, podendo ser entendida como possibilidades, oportunidades, recursos ou disponibilidades. Assim, os colaboradores de uma organização, ao interagirem com os objetos e tecnologias disponíveis, tornam-se influenciados pelas possibilidades que esses elementos oferecem ou restringem (Lavarda; Melo; Leite, 2025).
A propriedade de affordance pode se manifestar tanto em materiais físicos, quanto não físicos. Por exemplo, no caso de artefatos tecnológicos, uma interface gráfica de um software permite que o usuário entenda de forma intuitiva como ele irá interagir com o programa, mesmo que seja seu primeiro contato com o próprio. Quando tecnologias oferecem affordances elas são capazes de mudar as práticas do trabalho, assim como sua própria natureza (Berenger et al., 2019). Assim, “as affordances são dinâmicas e situacionais, e sua percepção está intrinsecamente ligada às interações sociais e materiais no contexto organizacional” (Lavarda; Melo; Leite, 2025, p. 29).
3 METODOLOGIA
Este estudo consiste em uma pesquisa qualitativa descritiva, na qual os autores descrevem a sociomaterialidade constitutiva do software, por meio de uma pesquisa de campo, assumindo o papel de observadores e exploradores. O objeto de estudo desta pesquisa são os efeitos da sociomaterialidade sobre as práticas de gestão das organizações. Porém, é conveniente demarcar a unidade de análise da pesquisa de campo, composta por alambiques de cachaça e pelo sistema de informação oferecido pela startup Cachaça Gestor®.
A empresa Cachaça Gestor® tem como clientes produtores de cachaça, atendendo atualmente a mais de 100 organizações, sendo a maioria localizada no estado de Minas Gerais. O software é um sistema computacional desenvolvido com o objetivo de facilitar a vida do produtor de cachaça e aumentar produtividade e eficiência dos alambiques. A plataforma web garante maior controle do processo de gestão e produção dos empreendimentos, além de fornecer apoio com informações importantes, dicas e orientações para uma produção de qualidade e com certificação.
Para atender ao objetivo do estudo, foram estudados alguns alambiques clientes do Cachaça Gestor®. Foram realizadas 17 entrevistas com gestores que lidam diretamente com o aplicativo. Procurou-se entender como a materialidade do software adotado se imbricou às práticas sociais da organização, ou seja, se houve mudanças na rotina, dificuldades na implantação, fatores que contribuíram, os benefícios e vanTagens competitivas observadas, o modo como o aplicativo vem sendo utilizado, entre outros aspectos. Além disso, foram realizadas entrevistas com os desenvolvedores para compreender desde a ideia de criar o software até o funcionamento nos dias atuais.
Foram entrevistados dois empresários e criadores do software do Cachaça Gestor®, além de 17 gestores de alambiques que utilizam o software, totalizando 19 entrevistas. As entrevistas com os usuários foram feitas por amostragem por saturação; a busca por novos participantes foi interrompida quando os dados obtidos por meio das entrevistas se tornaram repetitivos ou redundantes. Todas as entrevistas foram gravadas com permissão dos entrevistados e foram feitas anotações apropriadas e relatórios sobre a coleta de dados.
Para a análise e interpretação dos dados coletados, foi empregada a técnica de análise temática, que é empregada para identificar, analisar, reportar e comparar certos padrões ou temas encontrados dentro dos dados coletados, de forma a organizá-los e descrevê-los detalhadamente. A escolha se justifica por ser útil para diversos fins que se enquadram em nossos interesses, como apresentado por Clarke e Braun (2013), sendo eles: (1) pode ser utilizada em pesquisas sobre experiências e entendimentos pessoais sobre fenômenos em contextos particulares; (2) possibilita aplicação para análise de diferentes tipos de dados; (3) pode ser usado para todos os tamanhos de conjuntos de dados; e (4) as análises podem ser orientadas tanto por dados, quanto por teorias.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após a realização de entrevistas com os produtores e usuários do software Cachaça Gestor®, como apontado na metodologia, foi realizada uma análise temática dos dados com o auxílio do software de análises qualitativas MAXQDA.
4.1 A implantação do Cachaça Gestor®: desafios e potencialidades sob a ótica das organizações usuárias
Na Figura 1, pode-se observar o mapa conceitual final com os principais temas e categorias que emergiram dos dados e se mostraram importantes para as análises que se seguem.
Figura 1 - Mapa Temático

Fonte: Elaborada pelos autores
Os cinco temas centrais definidos após a quinta fase da análise temática foram: implantação do software; desafios e dificuldades; o software; diferenciais do Cachaça Gestor®; e implicações organizacionais. Dentro de cada tema surgiram alguns assuntos principais, que são chamados de categorias. Cada um dos temas e suas categorias são explicados e exemplificados mais detalhadamente a seguir.
4.1.1 Implantação do Software
É importante analisar como se deu a implantação do software Cachaça Gestor® nas organizações produtoras de cachaça de alambique. Este tema gerou, durante as entrevistas, o surgimento de questões sobre as necessidades que os produtores tinham que os fizeram procurar e contratar um software de gestão, isto é, aquilo que os motivou a adotar o Cachaça Gestor® em seus negócios. Outro ponto abordado durante as entrevistas foi o processo de adaptação das organizações ao sistema.
Necessidade/ Motivação: O Cachaça Gestor® ficou conhecido pelos usuários por meio de eventos de cachaça, pela internet ou por meio de outros produtores. Antes de começarem a utilizar o software, uma parte dos entrevistados trabalhava com planilhas do Excel e relatou ter dificuldades para manter o controle delas. Conseguir integrar os dados de uma forma que fosse visualmente estratégica se tornava um desafio, muitas vezes gerando inúmeras planilhas diferentes para controle de produção, estoque, financeiro e vendas. Alguns entrevistados já haviam buscado por outros programas de gestão, mas estes apresentaram problemas ou não conseguiram atender bem às demandas da empresa por não serem voltados para a atividade específica de alambique de cachaças. Assim, dentre as principais motivações para a implantação do software, destaca-se a necessidade de aumento da capacidade administrativa dos alambiques.
Adaptação: Foi possível perceber que a adaptação se deu de forma rápida e com facilidade. Entretanto, é possível perceber que alguns deles ainda se encontram na fase de adaptação, utilizando apenas determinadas funções e introduzindo outros módulos aos poucos. Observou-se que em algumas empresas mais novas no mercado, a adaptação tem sido não apenas em relação ao software, mas a todo o processo de gestão, visto que estão em fase inicial dos seus negócios.
Na Tabela 1 encontram-se exemplos de segmentos de entrevistas para ilustrar melhor as categorias acima.
Tabela 1 - Segmentos de entrevistas – Implantação do Software

Fonte: Elaborada pelos autores
4.1.2 Percepções e Desafios Experimentados Pelas Organizações Usuárias do Cachaça Gestor®
Como em todo processo de mudança, a implantação de um novo software traz consigo diversos desafios e dificuldades. Dentro desta temática, surgiram alguns pontos que merecem destaque analítico: a utilização parcial do sistema; particularidades da empresa; dificuldades em relação às funcionalidades do software; falta de tempo; centralização do uso; e resistência dos usuários.
Utilização Parcial: A utilização parcial das funcionalidades do sistema foi observada em grande parte dos alambiques entrevistados. Seja por acreditar que certas funções não se encaixam na realidade da empresa, por falta de experiência com o sistema, por falta de tempo, negligência ou até mesmo por questões pessoais e de mudanças na organização, observou-se que o software estava sendo subutilizado e os usuários estão deixando de aproveitar todo o potencial que ele oferece. Mesmo aqueles usuários que deixam de utilizar grande parte das funções disponibilizadas pela plataforma têm consciência de que poderiam utilizá-las e têm a pretensão de fazê-lo em breve. Por outro lado, alguns usuários mais antigos declaram utilizar quase totalmente o sistema, não operando apenas as funções das atualizações mais recentes.
Particularidades da Empresa: essa categoria auxilia no entendimento sobre o uso parcial do sistema. Na parte de produção, houve quem relatasse não utilizar todas as funções por questões específicas da empresa, por exemplo, o Entrevistado 3 disse que 60% da cana que utiliza é de canavial externo e, portanto, fica difícil fazer o controle completo da função de produtividade. Um exemplo seria o alambique da Entrevistada 11, que tem propriedades em diferentes estados, o que gera mais de um ponto de estoque. Atualmente, o software possui um controle de estoque no qual não é possível criar mais de um ponto, apenas o estoque total. Então, a empresária precisa lançar mão de estratégias como mudança de nomes de produtos, caracterizando-os por localização, o que para ela não é o ideal e gera certo incômodo. Assim, é possível notar que as diferentes realidades são difíceis de englobar em um sistema único.
Em Relação às Funcionalidades: alguns impasses foram citados pelos usuários, como dificuldades na emissão de nota fiscal, cometendo erros que geravam a necessidade de refazer ou cancelar as notas, dificuldade operacional em seu primeiro acesso para emissão de boletos, não conseguindo resolver apenas com os tutoriais já disponíveis no sistema e dificuldades para utilizar a plataforma no celular, o que prejudica os relatórios.
Falta de Tempo: A falta de tempo é uma justificativa para o uso parcial do sistema e para a falta de atualização e alimentação dos dados de forma eficiente. Em determinadas épocas da produção, como a safra, o tempo disponível fica ainda menor. Os produtores alegam que não conseguem utilizar a plataforma em sua plenitude, mas reconhecem que se conseguissem superar esta barreira, teriam resultados melhores.
Centralização: A centralização da utilização do sistema normalmente está na mão de poucas pessoas ou apenas de uma, os gestores e proprietários. No geral, eles têm dificuldade de delegar tarefas do sistema para outras pessoas, seja por falta de funcionários qualificados ou por querer ter o controle nas próprias mãos. Isto cria uma dependência muito grande nos donos da empresa, ficando sobrecarregados, o que influencia no uso insatisfatório do sistema.
Resistência dos Usuários: A implementação do Cachaça Gestor® gerou um certo desconforto inicial. O sistema trouxe consigo novas atividades e controles que antes não eram realizados, informações que antes eram ignoradas passaram a ter que ser anotadas, aquilo que antes era feito no papel de forma rudimentar, passou a ser processado em uma plataforma digital. Tudo isto resulta em um processo de adaptação e inevitavelmente acarreta alguma resistência. O Entrevistado 19, por exemplo, declarou que algumas informações financeiras, como preços de seus produtos, não são lançadas no sistema, apenas em um caderno pessoal, como forma de segurança, para não abrir seu leque de informações para o mercado.
A Tabela 2 traz alguns trechos das entrevistas para ilustrar melhor cada categoria.
Tabela 2 - Segmentos de entrevistas – Desafios e Dificuldades

Fonte: Elaborada pelos autores
4.1.3 As Especificidades Sociomateriais do Cachaça Gestor® Sob a Ótica dos Usuários
A análise temática realizada permitiu a categorização de diversos temas que particularizam o software Cachaça Gestor®, entre as quais se destacam: limitações, funções mais utilizadas, processo de alimentação dos dados e feedback dos usuários.
Limitações: Foram citadas algumas funções ainda não existentes e algumas sugestões para melhorias, dentre elas: adaptação para bebidas mistas; versão para comércio com controles de pontos de vendas e códigos de barra; calculadora de correção alcóolica; emissão de cupom fiscal; integração com o banco; melhorias nos gráficos, relatórios e indicadores; funções de contabilidade, como balanço patrimonial, demonstrativos e fluxo de caixa; funções para pagamento de despesas gerais da empresa; criação de um modo rascunho para orçamentos e vendas; melhoria na utilização do sistema por meio de celulares; entre outras.
Funções Mais Utilizadas: A função de cálculo de impostos é uma das mais utilizadas, sendo as questões legais a principal dificuldade dos produtores de cachaça de alambique. A emissão de nota fiscal e de boletos também entram como as mais utilizadas. O controle de estoque foi muito citado como uma função que facilita a vida dos empresários. Igualmente, as demais funções financeiras são fortemente empregadas, como fluxo de caixa, contas a pagar e receber, vendas e compras. De forma menos intensa, apareceram as funções de produção.
Processo de Alimentação dos Dados: O processo de alimentação dos dados é muito importante para que o software funcione de forma eficiente, pois sem dados completos e atualizados, os relatórios e informações gerados não são úteis ou não representam a realidade. Alguns entrevistados informaram que mantêm o sistema sempre atualizado, alimentando-o com frequência. Entretanto, outros confessaram ter problemas para conseguir estar sempre em dia com esta atividade por problemas eventuais nos alambiques, épocas mais conturbadas ou a correria do dia-a-dia.
Feedback dos Usuários: Um assunto de extrema importância diz respeito ao feedback que os usuários dão aos gestores do Cachaça Gestor®, que foram essenciais para a evolução e aprimoramento do sistema desde o início da sua história. Mesmo quando os entrevistados iam se referir a demandas ainda não atendidas ou limitações da plataforma, quase sempre completavam dizendo que já haviam relatado estas impressões para os gestores dosoftware, que demonstraram prontidão para resolver as questões nas atualizações seguintes, o que demonstrou uma ótima relação dos clientes com os mesmos.
A Tabela 3 traz exemplos de segmentos de cada categoria.
Tabela 3 - Segmentos de entrevistas – Software

Fonte: Elaborada pelos autores
4.1.4 Diferenciais do Cachaça Gestor®
Os entrevistados demonstraram estar satisfeitos com a empresa e o sistema Cachaça Gestor®, enaltecendo alguns pontos cruciais para preferirem contratá-lo a outros sistemas. Sendo assim, é sensato abrir uma temática e análise sobre os diferenciais do Cachaça Gestor®, sendo as principais categorias que surgiram durante a pesquisa: suporte, facilidade, ser específico para cachaça e as atualizações.
Suporte: De acordo com os usuários, o suporte prestado pela empresa e seus funcionários é exemplar, sendo fortemente elogiado por todos os clientes. Como relatado nas entrevistas, os funcionários estão sempre dispostos a atender às dúvidas e necessidades dos clientes com muita agilidade, por telefone ou até mesmo por vídeo conferência.
Facilidade: Segundo os usuários, a plataforma é muito autoexplicativa, com diversos tutoriais e o próprio software induz como o usuário deve agir, além de fornecerem um treinamento. Em seu canal do YouTube e na página do Instagram, eles lançam alguns vídeos e posts de demonstração ou informativos, com dicas e explicações.
Específico para Cachaça: O Cachaça Gestor® era o único sistema específico para o setor de cachaça existente no mercado. Isto agrada muito aos clientes e atrai mais produtores, visto que é todo voltado para o ramo, com a linguagem utilizada pelos produtores e condizente com a realidade das empresas. Alguns entrevistados chegaram a usar outros sistemas, mas eram mais generalistas e, por isso, não atendiam tão bem às necessidades dos alambiques.
Atualizações: De acordo com os produtores, os desenvolvedores do sistema estão sempre lançando atualizações e melhorias para aperfeiçoar o produto que estão disponibilizando, de forma flexível e rápida, sendo um diferencial a favor do Cachaça Gestor®. O Entrevistado 4 diz que antes mesmo que eles possam pensar em uma necessidade, os desenvolvedores já lançam a atualização. A evolução do software ao longo do tempo é visível e notada pela maior parte dos clientes.
Na Tabela 4 encontram-se alguns segmentos das entrevistas referentes a cada categoria.
Tabela 4 - Segmentos de entrevistas – Diferenciais do Cachaça Gestor®

Fonte: Elaborada pelos autores
4.1.5 Efeitos da Implantação do Software Sobre as Práticas Organizacionais.
Os efeitos da implantação do software sobre as práticas organizacionais foram reunidos em 5 categorias: centralização das informações; gestão do negócio; relacionamentos e comunicação; controle de produção e estoque; e mudanças significativas.
Centralização das Informações: Foi o benefício mais citado entre os entrevistados. A plataforma possibilita aos empresários a visualização de todas as informações, desde a produção até as questões financeiras, passando por cada área da empresa. Tudo isto de forma integrada e centralizada. Ter todo este arsenal de dados na nuvem possibilita que os indivíduos tenham acesso em qualquer lugar, podendo fazer o controle e tomar decisões mesmo à distância.
Gestão do Negócio: O uso do software permite controlar as entradas e saídas, vendas, contas a pagar e receber, estoque, pedidos, notas fiscais, entre outros. Ele permite uma visualização mais ampla da organização. Isso viabiliza uma programação e planejamento melhor, servindo de embasamento para decisões. É possível, por meio do sistema, observar as épocas em que há pico de consumo de determinado produto, quais produtos têm mais saída, entre outros fatores que auxiliam na tomada de decisões sobre produção e compra de insumos.
Relacionamentos e Comunicação: Observa-se evoluções no relacionamento e na comunicação, tanto entre gestores e funcionários, quanto com os clientes e fornecedores. Em relação aos clientes, o sistema auxilia na visualização dos que compram com mais frequência, os tipos de clientes de diferentes segmentos (bares, restaurantes, empórios), quais produtos consomem mais, quem são e até mesmo no planejamento de novos produtos e campanhas orientadas a um segmento ou público-alvo. Já no relacionamento com os funcionários, a centralização das informações de forma organizada e padronizada faz com que todos estejam vendo os mesmos números, colocando todos na mesma sintonia.
Controle de Produção e Estoque: O sistema controla os estoques de forma interligada e automática. Portanto, ao produzir uma garrafa de cachaça, o próprio programa já dá baixa em todos os insumos utilizados, como a própria cachaça, a garrafa, tampa, lacre e rótulo. Na parte da produção, o sistema propicia ter informações de todas as etapas (talhão, plantação, moagem, fermentação e destilação), saber as médias de produção, o rendimento, grau alcóolico, a acidez média, a quantidade de cana, tempo de fermentação, de qual alambique veio a cachaça e vários outros dados relevantes para um alambique e para garantir produtos de qualidade.
Mudanças Significativas: Algumas mudanças nas organizações foram citadas pelos usuários, dentre as quais: agilidade na gestão; controle da produção do início ao fim; confiabilidade das marcas; dependência em relação ao sistema; segurança nas decisões e maior embasamento; orientação para gerir o negócio mesmo sem possuir formação ou conhecimento prévio; otimização de preço, custos e lucro; diminuição da inadimplência; entre outros.
Na Tabela 5 encontram-se segmentos das entrevistas para ilustrar cada categoria.
Tabela 5 - Segmentos de entrevistas – Implicações Organizacionais

Fonte: Elaborada pelos autores
4.2 Efeitos da Sociomaterialidade Sobre as Práticas de Gestão: Uma Síntese Analítica
Neste tópico, é feita a associação dos resultados com as teorias apresentadas anteriormente na fundamentação teórica, de forma a atender ao objetivo do artigo. É possível notar que os fatores humanos influenciam os recursos materiais e vice-e-versa. Portanto, o sucesso da implantação do software nas organizações não depende apenas do produto, mas também de variáveis sociais. De forma geral, o surgimento de um programa que atendesse especificamente o setor de produção de cachaça trouxe a oportunidade de introduzir uma nova tecnologia nas organizações, o que resultou em grandes transformações, novas constituições e inovações nas práticas cotidianas, indo ao encontro do que foi exposto por Berenger et al. (2019).
Ao analisar diferentes organizações, constatou-se que a forma como elas utiliza o mesmo sistema apresenta diferenças consideráveis de ações e de resultados. Este fenômeno é explicado por Leonardi (2013), que destaca que os usos e ações da materialidade podem diferir dependendo do contexto em que é utilizada. Ainda de acordo com o autor, é preciso levar em conta o fator tempo. No caso estudado, o tempo de utilização do sistema influencia na forma que se dá o processo de imbricação das agências materiais e sociais. As empresas que utilizam há mais tempo demonstram resultados melhores, enquanto aquelas que ainda estão em processo de adaptação sofrem mudanças sociomateriais mais sutis. Outros fatores, como os apresentados na categoria de particularidades da empresa, tornam a utilização do sistema diferente em cada organização.
Os relatos de alguns entrevistados mostram que, depois que começaram a utilizar o Cachaça Gestor®, tiveram uma mudança de mindset e passaram a orientar suas práticas de gestão pelo sistema, tornando-se dependentes do mesmo, sempre consultando a plataforma para tomar decisões de forma embasada e acompanhando diariamente a evolução de seus negócios, gerindo as organizações de forma mais profissional. Este fenômeno reforça o que foi dito por Contractor, Monge e Leonardi (2011), Parmiggiani e Mikalsen (2013) e Dwivedi et al. (2015), que implementar um sistema de informação em uma organização pode mudar completamente a forma como os indivíduos trabalham e pensam. O sistema passou a desempenhar um papel orientador da ação humana durante as rotinas organizacionais, servindo como um guia para a gestão e passando a ser imprescindível para as rotinas organizacionais (Robey; Anderson; Raymond, 2013).
Foi importante dar visibilidade à visão dos usuários, além da visão dos desenvolvedores do sistema, mostrando as percepções de diferentes atores envolvidos. Mesmo que na visão dos desenvolvedores de um sistema o sucesso de seus produtos seja indiscutível, não há garantias de que os usuários terão a mesma percepção (Dwivedi et al., 2015). No presente caso, verifica-se que os usuários obtiveram sim sucesso com a adoção do Cachaça Gestor®. Entretanto, algumas empresas ainda não alcançaram um patamar de uso que aproveite todo o potencial oferecido pelo sistema e defendido por seus desenvolvedores. Por outro lado, encontramos organizações que se destacaram e mostraram estar usufruindo de todos os benefícios que a plataforma agrega a seus negócios, talvez por possuírem mais tempo de mercado, mais experiência em gestão e por estarem utilizando o sistema há mais tempo.
Ao analisar os resultados, ficou claro que a adoção de uma nova tecnologia alterou a dinâmica social das organizações. Pautando-se no que foi apresentado no tema Implicações Organizacionais, constata-se que houve mudanças em aspectos como tomada de decisões, nos relacionamentos e na comunicação e na gestão do negócio, consonante com a teoria apresentada (Contractor; Monge; Leonardi, 2011; Parmiggiani; Mikalsen, 2013).
Alguns gestores mudaram suas práticas para conseguirem se encaixar na materialidade pré-configurada apresentada pelo sistema, que limita algumas atividades, por possuir um conjunto de recursos específicos. Por outro lado, alguns clientes buscaram negociar com os desenvolvedores atualizações e mudanças no software que possibilitem atender às suas demandas específicas. Portanto, comprova-se que as tecnologias podem moldar e serem moldadas pelas estruturas sociais nas quais são introduzidas (Contractor; Monge; Leonardi, 2011; Elbanna, 2016; Leonardi, 2013).
Na Tabela 6 encontra-se uma relação de alguns exemplos de affordances, observadas a partir dos resultados, em um esforço de mostrar as demandas dos gestores (social), imbricando-se com as propriedades do software (material), gerando a sociomaterialidade. Constata-se que o valor dos recursos do Cachaça Gestor® ou das organizações não está em sua existência independente, mas sim na maneira como eles são representados juntos.
Tabela 6 - Exemplos de Práticas Organizacionais e Sociomaterialidade

Fonte: Elaborada pelos autores
Como mostrado na apresentação dos resultados, algumas das organizações estudadas ainda se encontram em fase de implantação do sistema e de adaptação. São poucas as organizações que já alcançaram uma implantação mais avançada, conseguindo usufruir do software com mais intensidade, passando por todas as suas funcionalidades e benefícios possíveis. Ter dentro da unidade de análise empresas em diferentes momentos de implantação nos permite comparar e analisar melhor o processo de adaptação ao longo do tempo, assim como as resistências manifestadas.
Apesar dos benefícios organizacionais incontestáveis trazidos pelo programa, a implementação de sistemas de informação neste setor da cachaça demonstrou-se desafiadora e demorada, em grande parte pela resistência dos usuários, como defendido por Lin, Huang e Chiang (2018). Assim como exposto por Hsieh e Lin (2018), os indivíduos de empresas que estão na fase de adoção inicial demonstraram uma certa subutilização do sistemas, outros que já estão na pós-implementação apresentaram resistências em dedicar tempo e esforço suficiente no manuseio da plataforma.
Indalecio e Joia (2018) em sua revisão, analisam o fenômeno de Resistência a Sistemas de Informação e alguns resultados da pesquisa condizem com o que foi exposto por eles. Por exemplo, observou-se durante as entrevistas a tendência de comparar o Cachaça Gestor® com outros sistemas utilizados e experiências anteriores, o que influenciou na avaliação pessoal em relação ao sistema. Os usuários avaliaram o sistema de acordo com sua facilidade e utilidade, com a segurança dos dados e a conformidade com os objetivos organizacionais. Além disto, a percepção coletiva e a imagem positiva que o Cachaça Gestor® tem entre o grupo de produtores de cachaças de alambique resultou em baixos níveis de resistência de novos clientes.
A realidade das empresas estudadas condiz com a de outras empresas de pequeno porte. Elas possuem estruturas mais simples, atividades menos especializadas, menos recursos financeiros, humanos e tecnológicos, com menores níveis de conhecimento interno de sistemas de informação, pouco treinamento formal e ausência de pessoas especializadas em tecnologias (Cragg; Caldeira; Ward, 2011). Tudo isto dificulta e cria resistências ao processo de adoção de novas tecnologias, entretanto os desenvolvedores do Cachaça Gestor® entraram com o papel de diminuir barreiras e facilitar a implementação eficiente de sistemas tecnológicos.
Percebe-se que as resistências, desafios e dificuldades sempre irão existir, independente do potencial promissor do software adotado. Entretanto, os resultados serão sempre relativos, as influências das práticas sociomateriais vão variar de acordo com as capacidades dos indivíduos envolvidos na imbricação (Wang et al., ٢٠١٥). Os relatos trazidos nesta pesquisa corroboram com a afirmação de que o sucesso ou o fracasso da implementação de um SI não dependem apenas dos humanos ou das tecnologias, e sim do surgimento de relações sociomateriais originadas a partir do entrelaçamento de ambos (Kautz; Cecez-Kecmanovic, 2013).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo investigar os efeitos da sociomaterialidade constitutiva do software Cachaça Gestor® sobre as práticas de gestão de organizações produtoras de cachaça. A utilização da visão de duas partes distintas da história (os desenvolvedores de um lado e os usuários de outro) viabilizou uma análise mais completa, levando em consideração as interpretações e significados construídos de todos os indivíduos envolvidos no fenômeno da sociomaterialidade estudada. A pesquisa descritiva possibilitou uma análise profunda da realidade observada, resultando em explicações detalhadas e relevantes.
Os efeitos da sociomaterialidade constitutiva do software sobre as práticas de gestão das organizações puderam ser observados e foram exemplificados na Tabela 6. Foi demonstrado que a utilização da plataforma trouxe transformações importantes, novas constituições e inovações nas práticas cotidianas de seus usuários. O sistema passou a orientar as práticas de gestão dos empresários e dar maior aporte na tomada de decisões, demonstrando efeitos em todas as áreas das organizações e mudanças nas formas como os indivíduos trabalham e pensam.
As resistências à implantação foram analisadas. Percebeu-se que a maior parte das organizações estudadas ainda se encontram em fase de adaptação, não conseguindo, todavia, desfrutar de todos os benefícios oferecidos pelo sistema. Além disso, fatores como a falta de tempo, pequeno número de funcionários, resistência dos usuários e outras particularidades das empresas podem representar barreiras para a eficiência da aplicação do sistema nas organizações.
A presente pesquisa contribuiu para a compreensão de como os indivíduos lidam com a materialidade dos sistemas de informação e demais tecnologias adotadas em suas organizações. Tanto a fundamentação teórica, quanto os resultados empíricos apresentados, trazem informações que podem auxiliar na busca pelo sucesso na utilização de sistemas e software, chamando atenção para as possíveis barreiras e resistências que podem surgir ao longo do processo, o que pode orientar os desenvolvedores e fornecedores de tecnologias e, também, os usuários e gestores das empresas. Além disto, este estudo demonstra os benefícios e avanços que as tecnologias oferecem para as organizações produtoras de cachaça, incentivando a possibilidade de inovar em um setor com um histórico de amadorismo em questões gerenciais e tecnológicas.
Por se tratar de um contexto específico, este estudo poderá servir como suporte para a construção de teorias, para efeito de comparação com outros casos e com a teoria existente. Porém, os resultados aqui obtidos não podem ser generalizados e são válidos apenas para o caso estudado, sendo esta uma limitação. Outra limitação é a amostra utilizada no estudo; nem todos os usuários do Cachaça Gestor® foram investigados, porém foi utilizado o critério de saturação para finalizar a busca por novos entrevistados. Ressalta-se que não houve acesso a funcionários que utilizam o sistema, sendo esta mais uma limitação, visto que o perfil poderia apresentar diferentes tipos de resistências e outra visão. Em relação às entrevistas, podem ter sido enviesadas pelo receio por parte dos entrevistados em expressar opiniões negativas sobre o sistema. Para contornar esta possibilidade, foi explicado em todas as entrevistas que as informações eram anônimas e que não havia nenhum tipo de relação entre a pesquisadora e a empresa Cachaça Gestor®. Também pode ser considerada uma limitação o fato de que, por ser um software recente no mercado, a maior parte de seus clientes não têm muito tempo de utilização, o que dificulta observar os efeitos a longo prazo. Além disto, devido à quantidade de organizações e à distância geográfica entre elas, não foi possível realizar observação para coleta dos dados, de forma que foi levada em consideração apenas aquilo que foi expressado pelos indivíduos.
Como sugestão para trabalhos futuros, levanta-se a possibilidade de aplicar um questionário com todos os usuários do sistema, verificando de forma quantitativa a repetibilidade das mudanças de práticas e das resistências levantadas nesta pesquisa qualitativa. Seria interessante, no futuro, acompanhar mais profundamente algumas das organizações usuárias, em um estudo de caso etnográfico, além de retomar a investigação para acompanhar a evolução das empresas que ainda estão em fase inicial de implantação do sistema.
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