A memória enferma e o racismo como sintoma de uma neurose cultural brasileira: sobre a necessidade de uma terapia mnemônica coletiva com base nos pensamentos de Paul Ricœur e Lélia Gonzalez

Autores

Palavras-chave:

Memória coletiva, esquecimento, recalcamento, mito da democracia racial, Lélia Gonzalez, Paul Ricoeur

Resumo

Este trabalho pretende, ao longo de três tópicos, sugerir a necessidade de uma terapêuticamnemônicacoletiva como um meio para a elaboração de traumas históricos coletivos, promovida por uma historiografia crítica. Para isso, será inicialmente apresentada a noção de memória enferma, desenvolvida por Paul Ricœur em A memória, a história, o esquecimento, com o objetivo de testar a possibilidade de uma transposição de certas categorias psicanalíticas, circunscritas à esfera interpessoal da clínica e mediadas pela transferência, à noção de memória coletiva. Depois, será então apresentado o pensamento da filósofa brasileira Lélia Gonzalez, notadamente no que se refere a seu entendimento do fenômeno do racismo como sintomática do que chamou de neurose cultural brasileira, com atenção especial a sua relação fundamental com o mito da democracia racial, supostamente existente no Brasil de acordo com alguns intelectuais brasileiros do início do século XX. Por fim, com base nos dois tópicos anteriores, será indicada a necessidade de uma espécie de terapia coletiva que, diante da atual organização das instituições brasileiras, passa necessariamente pela educação, e, em especial, pelo ensino escolar de uma historiografia crítica – termo este que aparece em Ricœur e é reforçado pela crítica de Gonzalez a uma certa historiografia brasileira que engendrou e difundiu a ficção da democracia racial, o que novamente substancia a reunião dos pensamentos do filósofo francês e da filósofa brasileira neste trabalho –. Assim, para que essa terapêutica se realize, é preciso que fique bem determinado que tipo de historiografia promove a memória, ou, pelo menos, seguindo um caminho de exclusão, qual historiografia deve ser inteiramente recusada notadamente por promover o esquecimento por meio de um excesso de memória institucional, o que é tornado possível ao se conjugar os pensamentos de Ricœur e Gonzalez a partir de um olhar atento ao papel formador das ideologias.

Biografia do Autor

Carlos Frederiqui Dias Bubols, Universidade Federal de Santa Catarina

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Doutorando em Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Desenvolve pesquisa em Hermenêutica, centrada em temas como teoria da história, memória, literatura e psicanálise com base no pensamento de Paul Ricoeur.

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Publicado

19-02-2024