AS FORMAÇÕES DISCURSIVAS DOS RELATÓRIOS EMPRESARIAIS OFICIAIS:
CASOS DE CONSTRUÇÃO DE SIMULACROS EM PEQUENAS E MÉDIAS
EMPRESAS
THE DISCURSIVE FORMATIONS OF OFFICIAL BUSINESS REPORTS:
SIMULACRUM CONSTRUCTION CASES IN SMALL AND MEDIUM-SIZED
ENTERPRISES
LUIZ GUSTAVO ALVES DE LARA
Universidade Positivo
E-mail: gustavo.lara@up.edu.br
VITOR ADALBERTO FERREIRA
Universidade Estadual do Centro-Oeste
E-mail: vitor_adalberto@hotmail.com
RESUMO
Esta pesquisa tem por objetivo refletir sobre o alcance da capacidade de relatórios contábeis e financeiros oficiais
espelharem a realidade organizacional. Assim, buscou-se compreender a interferência discursiva de três diferentes
agentes: (i) investidores/empresariado; (ii) Estado/fisco e (iii) profissionais da contabilidade nas atividades dos
funcionários praticantes de registros contábeis e financeiros. Também se empreendeu uma análise acerca do relato
das práticas dos profissionais que realizam as atividades burocráticas para elaboração dos relatórios oficiais.
Cruzaram-se as análises e, com isso, apreendemos o desenvolvimento de práticas que buscam conformidade em
relação aos distintos interesses dos stakeholders sem a intenção de espelhar de forma imparcial a realidade acessada
pelos praticantes. A análise aponta para situações em que os funcionários que elaboram esses documentos parecem
sofrer influência do discurso de stakeholders, os quais nem sempre possuem interesses convergentes entre si. Com
isso, as escriturações contábeis oficiais daquelas organizações parecem perder a capacidade de espelhar a realidade
acessada e traduzida por aqueles praticantes. Como consequência, a compilação de documentos com informações
sistematicamente selecionadas pode construir hiper-realidades corporativas.
Palavras-Chave: Demonstrações Contábeis e Financeiras; Interdiscursos; Simulacros; Práticas Discursivas.
ABSTRACT
This research aims to reflect on the scope of the ability of official accounting and financial reports to mirror the
organizational reality. Thus, we sought to understand the discursive interference of three different agents: (i)
investors/entrepreneurship; (ii) State/tax authorities and (iii) accounting professionals in the activities of employees
engaged in accounting and financial records. An analysis was also undertaken on the report of the practices of the
professionals who perform the bureaucratic activities to prepare the official reports. The analyzes were crossed and,
with this, we apprehend the development of practices that seek conformity concerning the different interests of the
stakeholders without the intention to impartially reflect the reality accessed by the practitioners. The analysis points
to situations in which the employees who prepare these documents seem to be influenced by the discourse of
stakeholders, who do not always have interests that converge with each other. With this, the official accounting
records of those organizations seem to lose the ability to mirror the reality accessed and translated by those
practitioners. As a result, compiling documents with systematically selected information can build corporate hyper
realities.
Keywords: Accounting and Financial Statements; Interdiscourses; Simulacrum; Discursive Practices.
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1 INTRODUÇÃO
Na última década, presenciaram-se sucessivos colapsos do sistema financeiro,
desencadeados por crises de confiança em relação às informações divulgadas pelas empresas em
suas demonstrações contábeis, as quais são construídas desde a sua origem com base em
informações sistematicamente distorcidas da realidade (COSTA; WOOD JR., 2012). Mesmo em
grandes corporações, com robusta estrutura de governança corporativa, fraudes e falhas passam
despercebidas na virtualidade do mercado por décadas e, quando o sistema colapsa, culminam em
prejuízos aos stakeholders (MCGOUN, 1997).
No Brasil, são recentes os casos de corrupção e fraudes envolvendo empresas com tais
estruturas. Assim, até mesmo as corporações sujeitas a auditorias externas e com alto grau de
fiscalização do Estado apresentaram episódios de erros, fraudes e/ou corrupção. Em empresas
não auditadas, é possível que esses registros possam ser produzidos sem rigor, comprometendo a
capacidade de espelharem a realidade da atividade empresarial.
A qualidade das informações fornecidas aos stakeholders depende do registro fiel das
informações desde sua origem. Isso significa que, se não houver intenção de transparência desde
a escrituração primária das movimentações financeiras resultantes da atividade empresarial, tem-
se como resultado relatórios que representam uma realidade simulada, induzida pelo imaginário
dos usuários, afastada da concretude da realidade cognoscível pelo praticante incumbido de
efetuar os registros do real para a linguagem contábil. Assim, limitada à informação registrada
por convenções práticas (sujeitas a interferências de interesses, limitações instrumentais e/ou
linguísticas), os relatórios contábeis e financeiros podem produzir representações da realidade
empresarial originadas a partir da intenção dos usuários de produzir informações com finalidade
em si e para si mesmos (SCHINCKUS, 2008).
Buscou-se articular elementos da filosofia de Baudrillard (1991) para compreender as
representações geradas pelos relatórios contábeis e financeiros oficiais. A partir do entendimento
sobre práticas de Spink (2013), procurou-se identificar como alguns discursos influenciam na
formação das práticas burocráticas que originam esses documentos. Um estudo nesse sentido foi
empreendido por Macintosh et al. (2000) e, a partir de suas reflexões, vislumbrou-se a
possibilidade de aprofundamento analítico a partir de casos instrumentais da realidade brasileira.
Para compreender como os discursos, muitas vezes sustentando interesses distintos,
influenciam na formação das práticas administrativas/burocráticas que dão origem às
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demonstrações contábeis e financeiras divulgadas aos seus usuários/consumidores. Iniciou-se a
investigação a partir da identificação do discurso de representantes de três grupos de usuários das
informações contábeis/financeiras: (i) os investidores/empresariado; (ii) o Estado/fisco e (iii) os
profissionais da contabilidade que assessoram as rotinas financeiras e contábeis das empresas,
interrogando-os a respeito da finalidade desses instrumentos. A estratégia metodológica utilizada
pode ser compreendida a partir de duas etapas: (i) análise de discurso dos representantes desses
três grupos e (ii) a análise de conteúdo do relato das práticas de funcionários de departamentos
contábeis e financeiros de três empresas, caracterizadas como de pequeno e médio porte.
Acredita-se que este estudo contribua para uma reflexão crítica quanto às limitações dos
relatórios oficiais das atividades organizacionais, tomados como base de informações para
aplicações de técnicas gerenciais. Com isso, evidenciou-se a fragilidade da aplicação de algumas
técnicas em pequenas e médias empresas que, em muitos casos, sequer possuem obrigação legal
de registrar suas atividades com rigor. Com isso, perdem a capacidade de espelhar o que de fato
acontece no cotidiano de suas atividades produtivas.
2 SIMULACROS DA REALIDADE EMPRESARIAL
A civilização industrial esvaziou o significado imanente da materialidade dos objetos e
produziu significados condicionados à intenção do seu consumo (BAUDRILLARD, 2012). Não
são os objetos em si que são consumidos, mas os significados atribuídos aos seus signos. Desse
modo, as significações tornam-se produtos do imaginário que excede, e muito, nossas relações
diretas com os objetos (BAUDRILLARD, 2012). No ambiente corporativo, pode-se considerar
que o signo primário é o real acessado pelas pessoas. Em um segundo nível, essa realidade é
significada e traduzida para signos da linguagem financeira e registrada em relatórios oficiais.
Em um terceiro nível, o acesso do usuário interessado ao ambiente organizacional se pela
interpretação desses relatórios. Entretanto, há que se refletir o que ainda resta de espelhamento de
realidade, considerando-se que a cada tradução de significado por meio das práticas de registros
burocráticos o real pode ser fragmentado e deformado pela intenção de produção de informação
dirigida a interesses de usuários distintos.
A destituição de sentido do objeto em si para produção de informação produzida com
finalidade em si mesma resulta na formação de simulacros. Os simulacros são sistemas de
significação edificados em significações utilitárias, simulações imaginárias em oposição à
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imanência do real (BAUDRILLARD, 1991). A simulação pretende ser o real, mas por ter sido
produzida a partir de utopias de realidade, e não a partir do real imanente do cotidiano, oferece
significações que reforçam a lógica de produção e consumo de significados que emanam do
imaginário em detrimento do objeto (BAUDRILLARD, 1991).
Essa formação das simulações e simulacros pode ser compreendida por intermédio de
quatro fases distintas sugeridas por Baudrillard (1991): i) a imagem é o reflexo de uma realidade
profunda e possui sentido imanente; ii) as significações são produzidas com base na
representação anterior, e, portanto, oferecem uma imagem com deformações representacionais;
iii) a representação de realidade mascara sua ausência como referencial, embora preservando
algumas de suas características numa relação confusa com o imaginário e, por fim; iv) a imagem
não tem nenhuma relação com a realidade, mas a substitui por completo.
A deformação representacional decorrente do esvaziamento das significações para
produção de significados é inexorável, pois os sistemas de significações possuem finalidade em si
mesmos (BAUDRILLARD, 1991). Consequentemente, formam-se hiper-realidades
caracterizadas pela insuficiência de referências do mundo real, ou seja, não mais
consciência do que é real e do que é simulação (BAUDRILLARD, 1991). Desse modo,
Baudrillard (2012; 1991) nos ajuda a perceber o simulacro linguístico que estrutura a realidade
empresarial ao apresentar uma perspectiva semiótica radical da produção e do consumo de
informações, a qual permite refletir sobre como os relatórios oficiais são consumidos a partir da
construção de sentido utilitário despertado pelo imaginário, com significações
descompromissadas com a realidade que deveriam espelhar (MACINTOSH et al., 2000).
Em decorrência disso, formam-se simulações de realidade, uma vez que muitos dos
artefatos gerenciais podem estar mais compromissados com utopias do que com a imanência do
real suprimida, esvaziada de sentido para abrigar significações utilitárias que justificam
estratégias preconcebidas (CLEGG; CARTER; KORNBERGER, 2004). Tais representações
como, por exemplo, documentos contábeis, balanços patrimoniais e demonstrações de resultado,
passam a figurar como retratos de uma realidade cuja origem se perdeu pela intenção do consumo
da informação que condicionou sua produção (BAUDRILLARD, 1991), não mais se referindo a
objetos e eventos reais. Nesse sentido, a contabilidade parece perder a capacidade de espelhar a
realidade empresarial (MACINTOSH et al., 2000).
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Além disso, é importante fazer, pelo menos, duas distinções analíticas em relação às
deformações representacionais da realidade. A primeira, refere-se à limitação imposta pelo
sistema de significação estável da contabilidade, uma vez que, na tentativa de representar a
realidade empresarial a partir de constructos da linguagem contábil/financeira, formam-se
simulacros de primeiro nível. Isso se deve ao fato de que não é a linguagem que se molda à
realidade, mas a realidade que é moldada para ser representada dentro de um sistema fixo de
significações. Dessa maneira, por limitação, o sistema de significação das demonstrações
financeiras produz imagens representacionais, no mínimo, limitadas. Mesmo com os avanços da
tecnologia de informação possibilitando a construção de sistemas gerenciais e contábeis robustos
para a difusão de representações das atividades empresariais demonstrações contábeis como
um produto de consumo do mercado financeiro carregam consigo a intransponível limitação
representacional imposta por um sistema de significação padrão.
A segunda distinção analítica em relação às deformações representacionais da realidade
refere-se à produção intencional de representações distorcidas com objetivos escusos. A
possibilidade de deformação representacional está além da limitação linguística da contabilidade,
mas sim no uso dessa fragilidade para desenvolver simulacros baseados na produção
representacional sistematicamente distorcida com vistas a alcançar objetivos fraudulentos. Essa
lacuna gerada pela incapacidade de um sistema linguístico fixo adaptar-se às singularidades
como, por exemplo, à linguagem dos relatórios contábeis, permite que os agentes praticantes das
atividades de registros burocráticos produzam imagens de uma representação de realidade em
favor de interesses particulares dos stakeholders.
2.1 As influências discursivas na construção de simulacros
A produção de sentidos para as demonstrações contábeis e financeiras estão
condicionadas à necessidade de consumo da informação pelos seus usuários. Considerando-se
que os simulacros geram significados com referência e finalidade em si próprios em detrimento
da realidade (BAUDRILLARD, 2012), pretendeu-se, por meio dos pressupostos das teorias da
prática, especialmente a abordagem de Gherardi e Strati (2014), fundamentar como a dinâmica
das práticas discursivas corroboram para sustentar sistemas de significações dos simulacros
produzidos a partir dos artefatos representacionais da contabilidade.
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As Ciências Sociais apoiam a ideia de que a língua atua como objeto simbólico para a
produção de sentido, que se transforma no tempo e que também é produzido por interlocutores
carregados de historicidades e de ideologias de uma variedade de interdiscursos (ORLANDI,
2002). Sendo assim, as práticas das Ciências Sociais reforçam a pluralidade dos significados da
linguagem em detrimento da univocidade (GHERARDI; STRATI, 2014). Os especialistas da área
são agentes importantes na produção de sentido. Orlandi (2002, p. 10) expõe que “há modos de se
interpretar, não é todo mundo que pode interpretar de acordo com sua vontade, os
especialistas, um corpo social a quem se delegam poderes de interpretar (logo de ‘atribuir’
sentidos), tais como o juiz, o professor, o advogado, o padre, etc.”. De forma análoga, no mundo
corporativo existem diferentes interessados que influenciam a produção de sentido para
representação da realidade, tais como: administradores, contadores, agentes de órgãos
normativos, etc., que na condição de especialistas, produzem determinados discursos e
desenvolvem o que denominamos de práticas discursivas. Forma-se, assim, uma complexa e
impermanente trama de discursos e interdiscursos que, por sua vez, também possuem implicações
nas próprias práticas rotineiras exercidas por esses sujeitos.
Essas práticas são como um tipo de comportamento rotineiro que consiste de vários
elementos interligados. Porém, não possuem apenas o sentido de fazer, o que fica claro nas
palavras de Schatzki (2012, p. 14) ao afirmar que a practice, on my understanding, is an open-
ended, spatially-temporally dispersed nexus of doing sand sayings”. Desse modo, percebe-se que
a prática, ou uma prática social, envolve não corpo, mente, coisas (atores não humanos),
conhecimento, estrutura, processo, mas, principalmente, discurso e linguagem (RECKWITZ,
2002). Esses dois elementos ajudaram a compor as bases das teorias da prática, especialmente
com as contribuições de Wittgenstein ao desenvolver a noção de jogos de linguagem, que mais
tarde também colaborou com outras derivações teóricas, como a da prática discursiva
(GHERARDI; STRATI, 2014).
De acordo com o conceito de prática discursiva considera-se que “é preciso entender que
a linguagem é ação e produz consequências” (SPINK, 2013, p. 6), pois uma prática é “o resultado
de uma prática discursiva que criou intersubjetivamente um sentir e um fazer em torno de uma
modalidade de fazer coletivo socialmente reconhecida e reconhecível” (GHERARDI; STRATI,
2014, p. 54). E é com base nesse argumento que se defende que, em uma determinada
comunidade, além de uma cultura própria, por exemplo, também uma prática discursiva que
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lhe é característica. Isso faz com que as práticas discursivas de uma comunidade ou entre
praticantes de uma comunidade como no caso em questão entre os stakeholders e os
responsáveis pelos registros da escrituração contábil ocorram “tanto na forma de discurso em
prática como na de discurso sobre a prática” (GHERARDI; STRATI, 2014, p. 94).
Empiricamente, a análise da prática discursiva permite que os praticantes falantes se
posicionem e produzam um corpo de conhecimento que será compartilhado com o investigador.
E, nesse processo, Gherardi e Strati (2014, p. 101) alertam que não se deve negligenciar ou
desconsiderar outros elementos, como a negociação de significados, nem devem ser excluídos
“processos complementares de competição, conflito, dominação e exclusão”. Isso quer dizer que
é relevante considerar esses e outros aspectos do contexto histórico e social dentro de um projeto
metodológico que resulta na busca de produção de sentido ou em um relato a partir das práticas
discursivas (SPINK, 2013).
É por isso que a entrevista para obter detalhes sobre uma determinada prática discursiva
deve ser entendida como uma “ação (interação) situada e contextualizada, por meio da qual se
produzem sentidos e se constroem versões da realidade” (SPINK, 2013, p. 138). Isso se
principalmente pelo fato de que serão produzidos momentos de “ressignificações, de rupturas, de
produção de sentido” (SPINK, 2013, p. 5) que correspondem a momentos ativos de ordem e de
diversidade do uso da linguagem. Cabe ao investigador social um cuidado na forma de captar,
interpretar e descrever o que foi relatado.
Diante disso, na próxima seção, expõe-se o percurso metodológico desenvolvido para a
condução dessa investigação.
3 PERCURSO METODOLÓGICO
Realizaram-se as duas análises expostas a seguir: (i) análise de discurso e (ii) análise de
conteúdo. A análise de discurso objetivou identificar os discursos de representantes dos três
diferentes grupos de usuários das informações contábeis: empresariado, fisco e contadores.
Suspeitava-se que esses discursos poderiam influenciar a formação de práticas burocráticas dos
registros da realidade apreensível para a linguagem contábil.
Num segundo momento, foram entrevistados os praticantes das atividades burocráticas
dos registros primários da realidade para os sistemas computadorizados. Analisou-se o conteúdo
dos relatos dos praticantes dessas rotinas burocráticas para perceber se os interdiscursos daqueles
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grupos de usuários interfeririam no desenvolvimento das práticas de registros das atividades
empresariais em sistemas contábeis.
3.1 Metodologia da análise de discurso
A análise de discurso foi estruturada sob a inspiração metodológica de Orlandi (2002). A
autora sugere que uma análise de discurso deve ser empreendida a partir da definição de dois
dispositivos: teórico e analítico. O primeiro dispositivo representa a lente teórica com a qual será
analisado o discurso (ORLANDI, 2002) e pode ser identificado a partir do referencial teórico
existente: articulação da filosofia de Baudrillard (2012; 1991) para compreender os simulacros
contábeis/financeiros (MCGOUN, 1997; MACINTOSH et al., 2000) com os pressupostos da
prática discursiva (GHERARDI, 2006; GHERARDI; STRATI, 2014; SPINK, 2013). Para
Orlandi (2002), o dispositivo teórico tem a função de evitar que, mesmo sem perceber, o analista
de discurso não ultrapasse as fronteiras dos conceitos que articula objetivando identificar
elementos da hegemonia discursiva, ou seja, seu objeto de estudo.
Em seguida, desenvolveu-se um dispositivo analítico que, segundo Orlandi (2002), deve
expressar com clareza ‘os porquês’ do corpus de análise. O corpus formado para este estudo
partiu da identificação intuitiva de três importantes grupos de usuários das informações contábeis
e financeiras: empresariado, fisco e contadores. Para obter-se representatividade e alcançar-se o
discurso hegemônico de cada um desses grupos, selecionaram-se os indivíduos que os
representam legalmente: um presidente de associação comercial como representante do
empresariado; um auditor do fisco estadual e outro federal para apreensão do discurso
governamental; e um membro da diretoria executiva de um Conselho Regional de Contabilidade
para acessar o discurso dos contadores.
Realizaram-se as entrevistas semiestruturadas durante o mês de dezembro de 2017. Em
cada uma delas, solicitou-se a concessão de autorização para gravar adiante comenta-se a
influência da presença do gravador. Usou-se, a priori, duas categorias analíticas desenvolvidas:
(a) função das demonstrações contábeis/financeiras e a (b) capacidade de espelharem a realidade
das atividades das pequenas e médias empresas. Durante o contato preliminar com o corpus,
aumentou-se o número de categorias analíticas para destilar elementos discursivos que davam
sentido àquilo que os sujeitos falaram na entrevista. Ao final desse processo, trabalhou-se com
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um total de cinco categorias, ou seja, além das duas já mencionadas, adicionaram-se (c) formação
dos simulacros corporativos; (d) concepções de ética; e (e) percepções de fraudes.
Após, alocaram-se as informações das entrevistas de cada grupo de usuários nas cinco
categorias formuladas. Buscou-se identificar o discurso que dava sentido àquelas falas transcritas,
pois segundo Orlandi (2002), o discurso não é obtido objetivamente no texto, mas por meio da
identificação dos paradigmas ideológicos que sustentam seu sentido. Deste modo, o discurso é
aqui concebido como sendo a concretude apreensível da ideologia que confere sentido ao texto.
Deve-se esclarecer que não houve a pretensão de esgotar as possibilidades de interpretação, mas
sim de identificar elementos discursivos daquele corpus de análise, conforme apontado por
Orlandi (2002).
3.2 Metodologia da análise de conteúdo
Os procedimentos da análise de conteúdo foram baseados nas sugestões de Bardin (2000).
Formou-se o corpus de análise a partir de entrevistas estruturadas, realizadas durante o mês de
janeiro de 2018, com três praticantes responsáveis por interpretar a realidade organizacional e
traduzi-la para a linguagem contábil de três empresas, da mesma região geográfica dos
entrevistados, para a análise de discurso enunciado no tópico 3.1.
Elaboraram-se as perguntas das entrevistas com a finalidade de apreender dimensões
práticas de cada uma das categorias analíticas utilizadas na análise de discurso, além de mais
uma, referente a relatos da formação das práticas de escrituração contábeis por meio da
linguagem contábil. Portanto, interrogaram-se os praticantes a respeito dos procedimentos de seu
trabalho que se referiam: (a) à finalidade das demonstrações contábeis/financeiras; (b) à
capacidade de as demonstrações espelharem a realidade; (c) à formação dos simulacros
corporativos; (d) às concepções de ética; (e) às percepções de fraudes e (f) à formação e à
manutenção das práticas de escrituração contábil da realidade por meio da linguagem contábil.
Posto isso, apresenta-se, na seção a seguir, a análise dos dados em subseções que mostram
a análise de discurso dos representantes dos grupos de usuários das demonstrações
contábeis/financeiras e a análise do conteúdo dos praticantes das atividades burocráticas de
registros primários da realidade para os sistemas contábeis/financeiros. E, por fim, estabeleceu-se
o cruzamento das análises com vistas a identificar como os interdiscursos dos grupos de usuários
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impactam na formação de práticas dos registros burocráticos de informações sobre atividades
empresariais.
4 ANÁLISE DOS DADOS
Nas próximas seções, apresentam-se as duas análises na ordem cronológica em que foram
desenvolvidas: (i) discurso de três grupos de stakeholders e (ii) o conteúdo do relato das práticas
dos profissionais que alimentam sistemas de informação e emitem relatórios contábeis e
financeiros oficiais.
4.1 Análise de discurso
Tomou-se, como ponto de partida, a identificação dos principais grupos de interessados
nas informações presentes nas demonstrações contábeis e financeiras. Indutivamente, chegou-se a
três grupos de interessados: o empresariado, o fisco e os profissionais da contabilidade. O
empresariado utiliza as informações contábeis para a tomada de decisão e para a programação
financeira do pagamento de impostos ao fisco, apurados pelo profissional da contabilidade.
Assim, buscou-se compreender a ideologia de cada um destes três grupos de usuários.
Não houve a pretensão de esgotar a possibilidade de interpretação ou de exaurir o sentido de suas
falas, pois o principal objetivo foi apreender aspectos ideológicos que davam sentido ao que
falavam ao se referir às demonstrações contábeis e financeiras. Para cada um dos representantes
dos usuários, induziram-se narrativas a partir de questionamentos sobre: (a) a função das
demonstrações contábeis e financeiras e (b) a capacidade de espelharem a realidade das
atividades das pequenas e médias empresas.
Durante os procedimentos iniciais da análise de discurso, fase em que se organizaram as
informações das falas transcritas, notou-se que os entrevistados divergiam em suas respostas: (a)
o representante dos empresários atribuía grande importância em confeccionar peças contábeis
com informações reais, entretanto, referiu-se com naturalidade aos mecanismos de controles
paralelos que muitos empresários utilizam para obter informações mais reais do que aquelas que
o profissional da contabilidade tem acesso para produção das demonstrações financeiras que
subsidiam a apuração de impostos; (b) o representante dos contadores sustentou que as
demonstrações contábeis não têm apenas a finalidade de aferição de impostos, mas são essenciais
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para tomada de decisão. Salientou também o dever de promover transparência das informações
entre os usuários, o que representa uma postura de ética profissional e de responsabilidade social.
Para o representante dos contadores, é dever do contador não compactuar com práticas
fraudulentas ou sonegações de impostos; (c) os representantes do fisco se referiam às declarações
de impostos elaboradas a partir das demonstrações contábeis apenas como parte do processo de
aferição do imposto, mas demonstraram relativo descrédito em relação àquelas informações em
função das tentativas de sonegação de impostos que, segundo eles, estava introjetada na cultura
empresarial. Entretanto, enfatizaram que a tecnologia de informação de que eles dispunham
permitia acompanhar a realidade a partir do cruzamento de outras informações que não se
limitavam àquelas produzidas pelos empresariados e chanceladas pelos seus respectivos
contadores.
Notou-se o quão distante eram os horizontes interpretativos dos representantes de usuários
entrevistados. A semântica das respostas escapava à objetividade das perguntas realizadas,
portanto, era necessário transcender o dito para a apreensão daquilo que lhe conferia sentido.
Assim, foi possível apreender-se que outros elementos eram articulados na construção das
respostas. A riqueza de informações em função das dissonâncias ao se referirem à importância e
às limitações das demonstrações contábeis exigiu que fossem elaboradas categorias analíticas
adicionais. A partir de elementos dessas entrevistas, trabalhou-se com três categorias adicionais:
(c) a formação dos simulacros corporativos; (d) as concepções de ética e (e) as percepções de
fraudes.
Com as categorias definidas, em caráter provisório para condução da análise, organizou-se
um compêndio temático de cada elemento categórico, conforme apresentado no Quadro 1.
Tomando como referência esses resultados (Quadro 1), buscou-se identificar qual era o
conjunto de ideias que conferia amplo sentido às proposições das falas dos entrevistados. Nesse
momento, não estávamos mais presos ao conteúdo das falas, mas buscávamos identificar aquilo
que dava sentido a elas, numa associação entre texto e contexto. Assim, identificamos ideias
amplas de cada grupo de usuários que significavam simultaneamente o conteúdo de todas as
categorias das falas.
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Quadro 1 – Organização das informações para análise de discurso
Fisco Empresariado Contadores
Ética: paradigmas que
fundamentam os acordos
de interação entre os
stakeholders
Não se deve sonegar.
Contador e empresário
devem trabalhar
conjuntamente para
evitar falhas, fraudes e
prejuízos.
A fidelidade nos registros
contábeis e no recolhimento
dos tributos devidos são
questões de
responsabilidade social que
devem ser zeladas pelo
contador.
Simulacros: realidades
apreendidas e deformadas
pelas limitações da
transposição da realidade
para a linguagem contábil
As distorções da realidade
ocorrem por fraude,
desinformação e/ou
limitações de softwares.
Os controles paralelos
são comuns no meio
empresarial, seja por
deficiência dos
sistemas contábeis, seja
pelo distanciamento do
contador.
As representações da
realidade devem ser feitas
dentro da legalidade,
utilizando-se de
conhecimento da legislação
para um bom planejamento
tributário.
Finalidade das
demonstrações
financeiras
As demonstrações
fornecidas ao fisco
viabilizam arrecadação,
mas não são tomadas como
reais.
Deveriam ser base de
tomada de decisão, mas
em geral não o são.
São base de tomada de
decisão para diversos
usuários.
Espelhamento do real:
capacidade das
demonstrações contábeis
espelharem a realidade
cognoscível.
A realidade é apreendida
pelo cruzamento de
informações de diversas
fontes.
A fidelidade à
realidade depende da
proximidade do
contador.
A tecnologia permite ao
contador produzir peças
contábeis que espelham a
realidade empresarial.
Fraudes: distorções da
realidade construída
intencionalmente para
beneficiar algum
stakeholder em detrimento
dos interesses de outro.
As fraudes ocorrem na
tentativa de maximizar
ganhos do empresário
através da sonegação.
Controles paralelos
com informações não
declaradas ao contador
que trabalha distante,
tampouco ao fisco
caracterizando
sonegação.
A sonegação fiscal através
da omissão de informações
por parte do empresário.
Fonte: elaborado pelos autores (2021).
As falas dos representantes do fisco ganharam sentido a partir de um discurso normativo
punitivo. Ao se referir às demonstrações contábeis fornecidas pelas empresas, o discurso do fisco
remeteu à normatividade e coerção (Quadro 2). Nesse sentido, chamou-nos a atenção o discurso
coercitivo que dava sentido à seguinte proposição do auditor-fiscal: “não temos pressa, mais cedo
ou mais tarde a gente pega as sonegações, pois temos tecnologia para isso”. Ficou clara a
confiança que depositam nos mecanismos informatizados de processamento de dados
triangulados com as informações dos relatórios oficiais das empresas que, em caso de evidência
de sonegação, acarreta severas punições ao empresário e ao contador da empresa.
O discurso que deu sentido à fala do representante dos empresários embasou-se na
racionalidade instrumental. O espelhamento do real será tão fiel quanto sua capacidade de
otimizar os ganhos e de reduzir as despesas da empresa. Em alguns momentos, o representante
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dos empresários argumentou sobre a importância da aproximação entre a contabilidade fiscal e a
contabilidade gerencial, pois em um plano ideal, deveriam unificar-se. Porém, nele se
reconheceu, com naturalidade, que várias empresas não registram todas as informações nas
plataformas contábeis e, por isso, necessitam de relatórios paralelos com informações mais
precisas para a tomada de decisão.
Quadro 2 – O discurso
Discurso
Fisco Empresariado Contadores
As empresas devem registrar suas
atividades financeiras com
fidelidade para pagar o imposto
devido. As declarações que não
representam a realidade de suas
movimentações, independente da
causa, serão identificadas via
cruzamento de informações e os
responsáveis serão punidos.
É comum utilizar controles
paralelos que representam
mais a realidade do que a
contabilidade.
As demonstrações poderiam
espelhar a realidade se o
contador fosse mais próximo
do cotidiano empresarial.
O contador possui o único compromisso
de ser fiel à realidade que dá base à
confecção das demonstrações contábeis.
Sua postura ética jamais deve sucumbir
a interesses particulares e, desse modo,
garante-se integridade das informações
das demonstrações aos usuários e a
arrecadação dos tributos devidos ao
fisco.
Fonte: elaborado pelos autores (2021).
O discurso da contabilidade foi fundamentado em um conceito ideal de ética. As falas do
representante dos profissionais da contabilidade ganharam sentido a partir de conceitos de ética
aplicados à atividade empresarial. O entrevistado afirmou que “impostos são sagrados” para a
contabilidade e que é inadmissível que um contador pactue com práticas de distorções de fatos da
realidade por sucumbir a interesses particulares. Por meio do discurso da ética, o entrevistado
explanou sobre a importância social do recolhimento do imposto devido. Portanto, o discurso
institucional do representante dos profissionais da contabilidade foi baseado em definições de
uma postura ideal, pautada em valores éticos que incumbem o contador de exercer o papel de
conselheiro da classe empresarial.
Durante as entrevistas, os sujeitos foram agentes passivos do discurso da instituição da
qual exerciam o papel de representação legal. Além disso, demonstraram-se cuidadosos com as
coisas ditas, pois a presença do gravador pareceu acentuar o assujeitamento ao discurso
institucional. Salienta-se que dois dos quatro entrevistados aguardaram o anúncio do fim da
gravação para confidenciaram posicionamentos pessoais dissonantes do discurso institucional que
haviam sustentado e, portanto, não foram autorizados registros. Dessa maneira, tem-se a
convicção de que, durante as gravações, acessou-se mais do discurso institucional do que a
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opinião individual daqueles sujeitos. Avaliou-se essa situação como um fator positivo, pois isso,
de alguma forma, levanta a questão: o discurso que chega aos praticantes quando realizam suas
atividades de registros contábeis e financeiros é o discurso oficial ou o institucional?
4.2 Análise de conteúdo
Realizaram-se entrevistas semiestruturadas com três praticantes de áreas financeiras ou
contábeis responsáveis por interpretar a realidade organizacional e traduzi-la para a linguagem
dos sistemas de informação a partir dos quais se produzem a escrituração e os relatórios oficiais.
Os entrevistados relataram como conduziam suas atividades na prática: o que registravam, como
registravam, o que não registravam e porque não registravam. Os procedimentos de análise de
conteúdo foram construídos inspirados nos protocolos sugeridos por Bardin (2000). A seguir,
apresenta-se o compêndio das categorizações dos relatos de práticas da construção dos relatórios
empresariais. Expuseram-se alguns dos excertos para permitir melhor inteligibilidade desta
análise.
Ética: as demandas do contador devem ser atendidas prontamente e suas orientações são
para realizar as tarefas com irrestrita conformidade. Neste sentido, a ética se manifesta nas
práticas burocráticas pela busca da conformidade legal.
Isso que é uma cobrança que elas [prestadores de serviços contábeis] fazem também:
Não faça errado, para você depois não ter problema. (Entrevistado 1)
Não existe o qual é mais importante [referência aos stakeholders], todos são importantes,
todos merecem atenção. Eu não consigo te definir o que é mais importante ou menos
importante, acho que tudo é um contexto. Tudo é um conjunto de situações e se tu
conseguir [sic] atender a todas elas a empresa vai bem e o contador também vai ter mais
tempo de praticar o seu trabalho dentro daquela empresa. (Entrevistado 3)
Simulacros: em todos os casos, o sistema de informação contábil (distinto entre as
empresas) foi relatado como limitado para espelhar a realidade. Desse modo, para complementar
a realidade construída a partir da linguagem contabilidade fiscal, os praticantes relataram a
utilização de outros mecanismos de controle paralelo, que expressavam melhor a realidade e
cumpriam com mais eficiência a função de subsidiar decisões gerenciais.
O nosso sistema, ele é meio limitado para isso, então a gente sempre tem que estar
perguntando. (Entrevistado 1)
Ele não é um sistema próprio para contabilidade, embora tenha os módulos contábeis.
Então, não tem como um sistema que abrange muitos setores de uma empresa ser bom
na parte contábil e gerencial [...] nós temos controle também planilhas do que o sistema
de contabilidade não atende. Que são informações, análise que nós fazemos. A
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contabilidade fiscal, ela é parecida sim com a gerencial, só que a contabilidade fiscal, ela
tem situações que ela atende extremamente ao fisco e pra questão de redução de
resultado positivo pra imposto de renda e contribuição, e a contabilidade gerencial não.
(Entrevistado 3)
Finalidade das demonstrações contábeis: os entrevistados reconheceram a importância que
as demonstrações teriam no processo decisório.
No meu ponto de vista é mais para cumprir uma exigência, porém, acho que a
contabilidade deveria ser vista com outros olhos também, não para cumprir a
exigência, mas também é uma ferramenta tão [...]. Que tem tantas informações que
poderia melhorar o desempenho da empresa. (Entrevistado 2)
Para que o relatório fiscal ficar [...] atender o fisco, atender as partes legais e para o
relatório gerencial atender tudo que a diretoria precisa. (Entrevistado 3)
Capacidade de espelhar a realidade: houve concordância entre os três relatos de que as
demonstrações contábeis por si não são suficientes para reconstruir o que aconteceu na
realidade. O retorno ao real depende de controles paralelos ou da interpretação de quem realizou
os registros.
Pode ter coisas ali [registros oficiais] que de fato não aconteceu na realidade, daí, só por
um relatório [relatórios paralelos não oficiais]. (Entrevistado 1)
Por exemplo, digamos um custo de um produto, lá tem quatro ou até cinco campos. Que
nem a gente que é mais habituado com o sistema já sabe aonde [...]. O qual é o custo real
ali, mas se for uma outra que pessoa que não está habituada, ela vai ter dificuldade.
(Entrevistado 2)
Fraudes: dois dos praticantes relataram com naturalidade as ocasiões em que precisaram
ou optaram por distorcer informações para gerar conformidade legal ou atender às necessidades
dos empresários.
Mas em folha nem sempre vem a comissão em folha, essa parte aí eu achava que deveria
melhorar um pouquinho. Nem sempre acontece. [...]. É, ou por que foi simulado? A
coisa não era bem assim, mas vamos fazer desse jeito que é melhor. Melhor para quem?
Melhor para o chefe [...]. Sabe, então acho que ajuda, mas não traz a realidade como
deveria ser. (Entrevistado 1)
Por exemplo, o aluguel dos sócios, na contabilidade fiscal isso é aluguel. Na nossa
contabilidade gerencial é um pró-labore porque é uma retirada deles. Então são
parecidos sim, que eles têm finalidades diferentes e eles têm pontos de vista
diferentes para números diferentes. (Entrevistado 3)
Formação e manutenção das práticas dos registros contábeis e financeiros: não havia
manuais prescritivos disponíveis para os praticantes entrevistados. A construção e a manutenção
das práticas ocorriam por socialização no ingresso e solução conjunta dos problemas cotidianos.
Realizadas as duas análises das entrevistas, na seção que segue, apresenta-se o
cruzamento das análises de discurso e de conteúdo para compreender como os interdiscursos
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condicionam a formação e a manutenção das práticas dos registros contábeis e financeiros
caracterizados neste estudo como sendo, em determinadas situações, simulações e simulacros de
realidade.
4.3 Discussão teórico empírica
Após a investigação realizada, percebeu-se que a dificuldade de espelhar a realidade das
finanças empresariais parece ter, pelo menos, três razões possíveis: (i) limitação da linguagem
das demonstrações, ou seja, a incapacidade da linguagem contábil registrar especificidades que
distinguem cada realidade empresarial; (ii) práticas adaptativas das informações da realidade
cognoscível para registro eletrônico com critérios de validade padronizados pelos
desenvolvedores de softwares contábeis ou, ainda, (iii) a intenção de não retratar a realidade da
qual o praticante (todos os envolvidos na inserção de informações nos sistemas gerenciais e
contábeis) tem consciência em função da influência de algum dos stakeholders que visa a
interesses particulares no registro das informações.
Identificou-se, primeiramente, a formação de simulações e simulacros análoga às
proposições de Baudrillard (1991; 2012) por uma limitação natural da linguagem contábil em
espelhar a realidade. A utilização de linguagem padrão instituída pela contabilidade é incapaz de
representar perfeitamente a realidade empresarial, principalmente nas pequenas e médias
empresas, cujos mecanismos simplificados de arrecadação desobrigam o esforço de espelhamento
do real nas demonstrações unicamente para fins gerenciais. Essas informações são melhores
representadas por meio de linguagem própria, elaboradas em controles paralelos cuja linguagem é
desenvolvida in loco e, portanto, maior capacidade de significar aquela realidade.
Na realidade das pequenas e médias empresas, com base nos relatos dos praticantes
entrevistados, as práticas burocráticas de registros das informações empresariais em linguagem
contábil são essencialmente adaptativas com rotinização (GHERARDI, 2006). Diante da
limitação da linguagem e dos sistemas para registrar a realidade das atividades financeiras, esses
praticantes pareceram desenvolver adaptações que permitem registrar elementos da realidade que
atendam às necessidades e interesses aos quais se subordinam.
Em nenhum dos casos revelou-se o uso de manuais para a execução dessas tarefas e,
assim, as práticas surgiram em função das vivências e do compartilhamento de informações entre
os praticantes e os stakeholders. Esse contato com os contadores pareceu impactar na conduta dos
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praticantes, que o referenciaram como um agente que necessitaria de informações precisas e em
conformidade. Isto se deveria ao fato de buscarem evitar punições dos órgãos de fiscalização em
função de equívocos nos registros financeiros e contábeis. Neste momento, ficou evidente que o
discurso normativo e punitivo dos órgãos de arrecadação fiscal foi determinante para que as
orientações do contador fossem observadas. Isso talvez não defina por completo o modo de se
operar, mas pode criar uma influência, pois ficou claro que apesar de o discurso do empresariado
remeter à necessidade de representar a realidade com fidelidade tanto nos relatórios gerenciais
como na contabilidade fiscal, as práticas relatadas pelos entrevistados remetiam a uma postura
conciliatória: apresentar à contabilidade aquilo que é necessário para gerar conformidade, sem
abrir mão, entretanto, de utilizar planilhas e relatórios extraoficiais que melhor representam a
realidade.
Houve relato de práticas em que se omitiram informações do real dos relatórios oficiais,
principalmente aqueles compartilhados com o fisco. Também se relatou sobre pagamentos de
salários que ocorreram fora dos registros da folha de pagamento ou de recibos informais que
foram emitidos no lugar de notas não emitidas. Ficou notório que, apesar da influência do
discurso da ética contábil que visa evitar sansões do fisco por inconformidade fiscal, bem como,
do discurso normativo e punitivo do fisco que desencoraja a omissão de receitas ou da prática de
sonegação, essas práticas não se subordinaram ao discurso do empregador. Empresário que busca
maximizar seus ganhos pelas lacunas que julga existir no processo de fiscalização ainda revela a
dependência de terceiros nesse processo, com situações que terminam por fugir da alçada da
própria empresa quando, por exemplo, fornecedores negam-se a emitir documento fiscal.
É fato que as pequenas e médias empresas possuem fiscalização menos intensiva e
legislação que simplifica os processos de recolhimento de impostos. Talvez seja por isso que as
informações que amparam o processo decisório não são originadas na contabilidade fiscal, em
que os registros são os mínimos necessários para cumprir com a obrigação legal. Por outro lado,
os relatórios emitidos para fins de recolhimento de impostos não espelham a realidade
cognoscível apreendida pelos praticantes das atividades administrativas. A complexidade da
realidade da empresa escapa à qualquer linguagem formal, e dessa condição não escapa a
linguagem padrão e normativa instituída pela contabilidade. Isso parece contribuir para formação
de representações de realidade com deformações que rompem com o propósito de espelhar o real
análogo ao que propunham McGoun (1997) e Macintosh et al. (2000).
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Nesta lacuna normativa, em que os órgãos de arrecadação desobrigam a apuração de
lucros a partir de lançamentos contábeis rigorosos, mas o fazem a partir da presunção de receitas,
as demonstrações contábeis das empresas de pequeno e médio porte ganham status de
representação limitada da realidade. Sua capacidade de espelhar o real se perde na intenção de
pagar o mínimo de impostos devidos para maximizar os ganhos. O real passa a ser registrado
apenas nos relatórios paralelos informais, nos quais de fato o espelhamento do real é mais fiel e,
portanto, tem utilidade para a tomada de decisão.
As referências que os praticantes fizeram em relação à influência dos contadores nas suas
práticas cotidianas são aderentes ao discurso institucional daquela classe. Os praticantes se
referiram aos contadores como sendo os agentes que necessitam de informações consistentes e
que refutam documentos que não estejam em conformidade legal. Acontece que, nesse processo,
nem tudo é informado à contabilidade; então, o contador age de forma ética chancelando as
informações que lhe chegam via documentos físicos ou eletrônicos, mas como na maioria das
vezes presta seus serviços a distância da realização das atividades reais, segue cumprido seu
papel de retratar com fidelidade todas as informações que lhes são fornecidas.
Consequentemente, não tem condições de tratar as informações que lhes são omitidas e constam
apenas nos relatórios paralelos utilizados pelos gestores. Na direção do entendimento sustentado
por Gherardi (2006) e Nicolini (2012), percebeu-se que as práticas são atravessadas por
discursos. Nos casos analisados, em todo o processo contábil, os praticantes eram influenciados
por práticas discursivas em seus fazeres no seu dia a dia. Nesse sentido, nota-se que as práticas
discursivas permeiam as relações entre os sujeitos e suas práticas nas organizações (SPINK,
2013).
O discurso do representante dos gestores enfatizou a importância e os ganhos gerados
quando as demonstrações financeiras e contábeis retratam com fidelidade aquilo que acontece na
realidade empresarial. Entretanto, ele admitiu que muitas empresas utilizam controles paralelos
para a tomada de decisão. Isso se deve à limitação da linguagem padrão da contabilidade para
retratar a realidade das pequenas e médias empresas, mas também é o caminho percorrido para
elaboração de documentos fraudulentos para sonegação fiscal. Isso se confirma na análise de
conteúdo com os excertos que ilustram práticas de fraude, ainda que os praticantes não o
interpretem como tal. A naturalização da representação de realidades que minimamente atendam
às normas do fisco, ainda que para isso seja necessário fraudar documentos como recibos,
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pagamento de salário, reforçam a racionalidade instrumental do discurso do empresariado que em
última instância visa manipular as lacunas legais para o pagamento mínimo de impostos. Isso
pode até mesmo não ser ilegal, mas a intenção de omissão em patamares que não representam
risco de punição fiscal, apenas reforça a proposição de que as demonstrações contábeis buscam
conformidade no sistema próprio de significação, mas não o espelhamento da realidade em
essência (SCHINCKUS, 2008).
O termo ‘planejamento fiscal’ foi referenciado pelos representantes do empresariado,
contadores e fisco. No nosso ponto de vista, trata-se da manipulação normativa para gerar
representações de realidades que estejam em conformidade com a legislação fiscal. Notou-se que
o objetivo de retratar a realidade é sucumbido pela racionalidade instrumental de maximização de
ganhos por meio do pagamento do nimo de impostos. Não se trata de fazer juízo de valor em
relação aos usuários que buscam dentro da legalidade maximizar ganhos ou diminuir o valor de
seus impostos. Mas reforça-se que, neste jogo interdiscursivo, o praticante está condicionado à
produção de realidades que atendam aos interesses discursivos aos quais está subordinado e,
portanto, a construção de realidade se com intencionalidade conciliatória e não de
representação daquilo que o praticante aprende em seu cotidiano.
Isso corrobora com os paradigmas de Baudrillard (1991) em que a significação dos
objetos, neste caso das atividades empresariais, se em função da necessidade do consumo da
informação, mas não daquilo que emana do objeto por si. Em outras palavras, as demonstrações
contábeis e financeiras das realidades investigadas são construídas pela necessidade instrumental
dos stakeholders, mas não necessariamente pelo objetivo de fazer dessas demonstrações um
espelho do real que conferiria qualidades para serem utilizadas como base de tomada de decisão.
A articulação e a manipulação da legislação para que dentro da legalidade possam ser
construídas demonstrações financeiras que levem ao pagamento de menos impostos, por si só,
subverte a capacidade das demonstrações contábeis e financeiras espelhar a realidade. Como
sugerido por Macintosh et al. (2000), pois a realidade passa a ser criada e retroalimentada por um
sistema de significação que possui fim em si mesmo e não na representação do real
(SCHINCKUS, 2008).
A classe dos profissionais da contabilidade sustenta um discurso da ética e da necessidade
de fazer das demonstrações financeiras o espelho da realidade. E, de fato, este discurso pareceu
influenciar na relação entre praticantes dos registros burocráticos e os prestadores de serviços
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contábeis. Entretanto, embora os contadores afirmem realizar com transparência e ética o registro
dos movimentos que lhes são informados via documentação, não se entra no mérito daquilo que
ocorre fora dos circuitos formais, como as adaptações que, por estarem em desconformidade com
os procedimentos padrão, acabam sendo omitidas para não gerar conflitos e problemas futuros
quanto à forma de escrituração.
Dessa maneira, a capacidade de representar a realidade pelas demonstrações contábeis
pareceu tão comprometida na realidade das pequenas e médias empresas que os representantes do
fisco tomam como realidade o cruzamento de informações de múltiplas fontes e fazem com que
esses documentos informados pelos empresários e contadores se tornem secundários em função
das práticas de manipulação para pagamento de menos impostos – sejam elas legais ou ilegais.
As práticas de escrituração da realidade em linguagem contábil surgem sob a influência
discursiva de agentes aos quais hierarquicamente o praticante está subordinado. As realidades
representadas pelas demonstrações financeiras e contábeis são construídas pela indução do
imaginário de seus usuários manifestos discursivamente. Neste sentido, Orlandi (2002)
fundamenta que o discurso se manifesta não somente na fala, mas nas ações não verbalizadas
como no caso da escrituração contábil. Os discursos dos usuários disputam hegemonia e mesmo
que a influência do discurso do empresariado seja mais presente na formação das práticas de
escrituração, devido à subordinação direta do executor, foi possível identificar hibridismo
interdiscursivo nas práticas relatadas pelos entrevistados.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As proposições filosóficas de Baudrillard (1991, 2012) nos levam a problematizar a
conexão entre as representações de realidade dos relatórios financeiros e contábeis oficiais e a
realidade conhecida pelos agentes organizacionais, ou seja, os praticantes das atividades
burocráticas e os usuários das informações. Isto havia sido sugerido como uma lente
interpretativa para compreensão do mercado financeiro (MCGOUN, 1997; MACINTOSH et al.
2000). Entretanto, a proporção de pequenas e médias empresas na economia brasileira nos levou
a uma reflexão radical sobre a hiper-realidade formada pelos relatórios contábeis no contexto de
empresas que sequer estão obrigadas a realizar seus registros com rigor.
A exemplo dos praticantes da escrituração contábil, também nos registros primários de
representações do real em que o trabalhador traduz dimensões da realidade que acessa para a
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linguagem fiscal, são desenvolvidas práticas que parecem mais buscar atender aos interesses dos
usuários daquelas informações do que representar o real acessado. Consequentemente, esses
usuários criam simulações e simulacros sob o compromisso de produzir sentidos com finalidade
na significação esperada pelo usuário da informação, mas não sob a intencionalidade de
representação do real com máxima fidelidade possível ao real cognoscível da organização. Esta
intenção de atender às necessidades de consumo de informações gera esforço de busca de
conformidade normativa se dissocia da intenção de representar a realidade conforme ela é
apreendida. Por isso, as demonstrações contábeis representam muito mais os desejos de realidade
de seus usuários do que o real propriamente dito.
Argumentamos ser importante que o campo de estudos organizacionais promova reflexões
críticas acerca da pretensão de reduzir a realidade à linguagem formal dos sistemas de
informação e dos relatórios que produzem. Isso se faz necessário para realizar uma discussão
sobre a capacidade de as demonstrações contábeis e financeiras espelharem a realidade
empresarial. Problematizamos a simples importação de técnicas de escrituração e de análises
econômicas e financeiras disseminadas nos cursos de gestão que ocorre da literatura voltada para
grandes corporações para as empresas de pequeno ou médio porte, entre as quais, muitas sequer
possuem a obrigação legal de realizar registros detalhados sobre suas movimentações.
Assim, reconhecemos que os achados do estudo limitam-se ao ambiente em que pesquisa
se desenvolveu e que existe a necessidade de expansão da investigação para apreensão dos relatos
de um número maior de praticantes. Neste sentido, sugere-se a replicação desta pesquisa para
ampliação do número de casos e o consequente refinamento de nossa proposta.
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