MANUAIS DE LINGUAGEM INCLUSIVA DE GÊNERO: A MANUALIZAÇÃO DO SABER LINGUÍSTICO E O DISCURSO SOBRE IGUALDADE VEICULADO POR INSTITUIÇÕES DO BRASIL

Camilla Machado Cruz

Resumo


Este artigo apresenta uma análise discursiva, na perspectiva da Análise do Discurso (AD) francesa em articulação com a História das Ideias Linguísticas (HIL), de dois manuais de linguagem inclusiva de gênero publicados no Brasil: o “Manual de linguagem inclusiva” (SINUS, 2017) e o “Guia de linguagem inclusiva para flexão de gênero” (TSE, 2021). O objetivo é compreender como ocorre o processo de manualização do saber linguístico nessas materialidades discursivas. Fundamentamo-nos em Pêcheux (2014, 2015), Puech (1998) e Auroux (2014). A análise evidencia a circulação de um discurso sobre igualdade que recomenda uma linguagem não sexista voltada à visibilização do feminino, mas não orienta o uso de uma linguagem não binária. Argumenta-se que a manualização do saber linguístico se inscreve em uma formação ideológica patriarcal, mobilizando formações discursivas binárias e não binárias.


Palavras-chave


Manualização; Discurso; Manuais de linguagem; Linguagem inclusiva; Análise do Discurso.

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Referências


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